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sábado, 21 de novembro de 2015

Biografia



Na busca de uma provisória eternidade
Vasculhamos os frutos podres de cada dia
Sacudimos os ombros das coisas
Esprememos os gomos da vida

Temos ânsia

Temos sede
Temos seca a nossa sorte

E em nome da sede

Nos armamos de paralíticas ilusões
Vamos aos templos
Vamos às guerras
Vamos às bruxas
Vamos às luas

Queremos água

Queremos seiva
Queremos o suco vivo da vida

E apesar da sede

Acreditamos no love for ever
Somos unidos - é a sede que nos une
Somos irmãos - até onde a sede permite
Apesar da sede 
Bendizemos essa sede maldita

E quando já estamos acostumados com a sede

Há o erro da células
O descomeço 
E o fim da sede.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Dias úteis / Vidas inúteis


Faz um tempo inclassificável no Rio
A multidão inundada pela névoa
Parece-me mais clara e menos feia

Os transeuntes
Vestem uma cara serena e pacificada
O tráfego 
Ondula num côro exausto e desafinado

O Rio parece um pátio
de loucos convertidos
Foi a neblina que os converteu
Foi esse falso cinzento de setembro
que  mandou da atmsofera
a doce ilusão de que tudo vai bem.

sábado, 7 de novembro de 2015

Caminhos de cristal


Havia uma única estrela no céu
Era hora de voltar
Olhei para trás.

Os caminhos que andei
eram espirais de fumaça
O meu tempo era uma ilha
e a vida não era ali.


Juntei meus restos vitais
Mirei-me no espelho d'água
Assustei-me
e fugi de mim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Círculos


Escolho o passo mais firme
Para a estrada mais reta
Sonho o sonho mais rosa
Para a meta mais certa

O mundo é geométrico
A vida é uma fórmula
Viver é ousar no trapézio
e evitar as perpendiculares
O prazer é um ângulo oblíquo
A esperança, uma paralela infinita
E a felicidade, um teorema

Andar é preciso
Chegar é vital
Achar é fundamental

Mas eis que se foi o meu tempo
das retas
Foi de tanto andar
Que se curvaram as retas
Que se fecharam os círculos.

sábado, 31 de outubro de 2015

Complexo e com nexo


Eu que te amei anticonstitucionalíssimamente
Consumi-me ensandecido no estro evanescente
De uma faúlha de amor mal fadado.

De olhos postos na frincha melíflua
de uma possível quimera
Jugulei-me demente
na molúria triste da madrugada

Absorto no menálio imorredouro
da paisagem nílica
Embriagado pelo nimbo fugaz do céu
Pelo néctar perpétuo de tuas melenas
Esqueci-me talvez de sentir
a dança do aroma
das magnólias que padeciam 
na ervagem radiante

Quando já não restava nada
Ou quando brilhava tudo
Menos a futilidade já muito gasta
de uma frase muito pouco erudita:
Eu te amo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poema da eternidade


Poema da eternidade
Moro num corpo que não é meu
Alugo o tempo, as tripas e o coração
Defeco, amo e odeio
Esta é a minha condição.

Vivo num espaço que não é meu
E às vezes, eu sou ateu
E quase sempre sou de ninguém.
Mas afinal quem sou eu?
Eu que me observo e não sou eu
Eu, habitante de um corpo que não é meu
Nada é meu.

Nem o devaneio que acabei de fabricar
com as sombras e o breu da noite
Nem é meu este resto de sol
E nem é meu o brilho do olhar da mulher
que me escolheu
Muito menos o zumbido das moscas
que sonorizam estas tardes de verão.

Moro num corpo que não é meu
Morro num corpo que não é meu

E qualquer dia
Depois de amanhã(se amanhã houver)
O corpo é teu
O corpo é teu
Ó terra profunda e maldita
que dás a vida e hospedas a morte
O corpo é teu
Ó terra traidora e bendita
O corpo é teu.

E quando eu for o adubo da terra
Viverei para sempre
Nos sulcos das folhas
Na seiva dos caules
No perfume e no sangue das rosas.

Eu serei da terra
Eu serei a terra
Estarei vivo
Nas avalanches
Nos terremotos
Nos vulcões
e nos maremotos.

A Eternidade não transcende a terra
Deus não mora no céu
E as estrelas que cintilam lá no alto
não são para mim.

A Eternidade
Tem a idade da terra
A Eternidade é a terra
A terra é eterna.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Espaços e vazios


Falta-me uma réstia de sol
Uns metros de chão
E um pouco de mim

Falta-me engatinhar
Brincar com a terra
E não saber falar

Falta-me uma choupana
Quatro panelas
E alguns trapos gastos

Falta-me um inverno
Uma lareira
E o respirar dos gatos

Faltam-me cinco dedos
Uma mão
E um empurrão

Faltam-me dois lábios
Um par de olhos 
E um coração 

Falta-me uma praia
Uma imensidão de areia
E dois pés descalços

Falta-me um domingo
Dois copos
E um vinho bom

Falta-me uma noite
Um violino
Um amor
E um infinito.

sábado, 10 de outubro de 2015

Férias no inferno


Aceito e assisto nesta noite
que não quero que tenha fim
à germinação 
e ao nascer dos frutos
de uma antiga solidão

Fecundou-a o silêncio e a penumbra
de uma certa atmosfera
repleta de nada e de coisa nenhuma

Caminho pelas ruas íngremes 
da meia-noite 
Desço a ladeira desta noite inteira
calçada com os cristais
da minha pele toda

Recolho o vácuo
Encho o meu cesto de rendições
e acaricio sem querer
os filhos e os frutos
desta velha solidão
que agora é mãe e árvore
e sempre foi minha ancestral

E amanhã
arderão os filhos e os frutos
sob o fogo do sol
Se a manhã quiser.

Na Jugular Literatura

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Humana condição


Acordar
Saudar o dia
com um café pontual
Rever a rua
e planejar a caminhada

Beber o leite
e sofrer por antecipação
Comer o pão
e sonhar mais uma vez

Sonhar que o mundo é meu
Sonhar que me achei
numa manhã de setembro
Sonhar com olhos pacíficos
pousados no meu ombro
Sonhar que me vi dançando sobre o arco-íris
mascando chiclete e falando inglês:
I'm so happy! I'm so happy!

Sonhar contigo
Sonhar comigo
chegando ao entardecer
de mãos dadas com o último raio de sol.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Isso

Viver é isso
Errar o troco
Trocar um pouco
Levar um soco
Passar por louco

Perder o mapa
Achar a mina
Mudar de capa
Fugir p'ra China

Plantar azul
Colher amarelo
Rumar p'ro sul
Virar branquelo

Viver é isso.

Sonhar moinhos
Fechar o quarto
Cortar caminhos
Sofrer de fato

Tomar juízo
Perder os dentes
Conter o riso
Vender os pentes

Viver é isso! 

sábado, 26 de setembro de 2015

Jugular

Reconstituo o itinerário dos loucos furiosos
Que deliram e são normais

Queria ser como os que matam as moscas
O tempo e o bom da vida
 
Treino todos os dias
Os cães da minha revolta
Eu queria ser cruel

Perco o fôlego no oxigênio da minha
lucidez
Fico bêbado com o cheiro  da minha
história
Desmaio nos braços das minhas
sangrias
Eu tenho raiva

Faço a minha mágoa em pedacinhos
Destilo o açucar das minhas desilusões
E me enveneno com as gentilezas da minha
espécie

Queimo este absurdo comportado
Lavo as minhas convicções na água da chuva
E me perfumo no môfo das minhas esperanças
Eu tenho ódio

Canto no banheiro
A mentira e a merda
que brota de almas imaculadas
E está tudo podre

Dôo o puro dos meus olhos
aos que inventaram o mundo
Ofereço o meu coração ileso
à Bolsa de Valores 
e à ganância dos poderosos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Money

Money one

Teus olhos são lindos zeros
Teus cílios, formosas vírgulas
O bolso é mais forte que o Eros
Meu amor, maior que os Calígulas

Amor, um C.D.B. na minha vida
És a commoditie desejada 
A Letra de Câmbio vencida
Minha Caderneta mui amada

Teu sorriso é um encantamento
Teus seios, o meu desterro
Teu traseiro, meu descarrilamento
No teu corpo aceita-se aterro

Tu que me deste venturas mil
Tu que foste minha Aplicação primeira
És meu lábaro, minha bandeira
És meu Banco do Brasil.
Money Two 

Pelas minhas contas 
Devo-te um I LOVE YOU
Mas não penses que me montas
Na cama terá que ser mais TRUE 

Tu que me chamas de embusteiro
E vives para me amolar
Mal sabes
Que um AI até vale um dinheiro
Mas um AH vale um dolar

As carícias estão em alta
Pois quero amanhã sem falta 
Todas aquelas todas aquelas apalpadelas
E dá-me o troco em roçadelas

Pelo que diz o jornal
A inflação é fatal
Terei que investir meu material
Em mais virgem matagal. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Milésima vomição - 1ª Edição


Escrevo pra ninguém
Mas falo para o mundo inteiro
E digo-me tudo o que não gostaria de escutar

Eu não queria escrever
Eu nem sei se gosto de escrever
Mas só quem sentiu um dia
Vontade de vomitar
Conseguirá me entender

E agora
Neste princípio de náusea
Neste começo de madrugada
Neste meio da rua
Nesta solidão e meia
E neste fim de espera
Não tenham nôjo do meu vômito
Não fui eu que criei o nôjo
Nem fui eu que inventei o vômito

Sirvo-me apenas
Das contrações involuntárias do meu espírito
Para expelir os restos desta comida ortodoxa
Que me enfiaram goela abaixo.

E entre os pedaços 
Que bóiam nesta golfada abjeta
Está a carne da minha revolta
Está o rabo do absurdo
Está a gosma da mentira
Está o braço da injustiça 
E os dedos intactos da morte.