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terça-feira, 6 de setembro de 2016
A indiferença do papel
Sempre suei livros
Sempre respirei palavras
Tenho nos olhos o sabor das tintas
Trago nos dedos o gosto do papel
O papel consente.
E de mulheres de papel
Fiz bacantes orgias
E de sonhos de papel
Fiz-me um futuro heróico
E com papel
Construí uma mansão arábica
de tesouros e quimeras
E em silêncio
O silêncio pressente.
sábado, 3 de setembro de 2016
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Sonho veloz
Queria nascer com alguns anos
Forte e belo
Numa pradaria aberta e calma
Filho de um enigma bom
Sobrinho travesso de um tio cósmico
Caído sem gosma da vagina verde
de um vegetal inconsciente
Parido sem dor
no horto
do único asteróide verdejante do espaço
Livre
Livre
ao ponto de morrer
ao avistar traços
da espécie humana.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Noites cariocas
Chove torrencialmente no Rio
Brilham centelhas de coxas
No fundo do asfalto
A multidão caminha muda
A noite é um gigante
Há um lixo vagabundo
pelas ruas da cidade
Estou torrencialmente só no Rio
Sou dos que sempre levantam o focinho
E mesmo em dias de chuva
Eu vejo os astros
Não suporto a imponência do mundo inteiro
e menos ainda
os cacos aguçados deste quebra-cabeças.
Brilham centelhas de coxas
No fundo do asfalto
A multidão caminha muda
A noite é um gigante
Há um lixo vagabundo
pelas ruas da cidade
Estou torrencialmente só no Rio
Sou dos que sempre levantam o focinho
E mesmo em dias de chuva
Eu vejo os astros
Não suporto a imponência do mundo inteiro
e menos ainda
os cacos aguçados deste quebra-cabeças.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Rotinas insólitas
Paira sobre nossas cabeças
o rastro de uma névoa tênue e fugaz
quase tão invisível quanto o nada
Tudo é tão incerto
quanto o não dito
O mundo faz as caretas de costume
e é feio e assustador
como as verrugas da bruxa
Não há sentido
no fluxo desatinado
dos que dão passos firmes
sobre as pedras regulares da civilização
Apesar das evidências que nos esmurram a cara
prosseguimos
Avançamos ensandecidos
pisando raivosamente o peito
dos nossos cadáveres mais diletos
O chão é um tapete de dor e morte
Reconheço pelas feridas
o corpo desfigurado da minha última esperança
Arranco a espada fria
que trespassou a carne do meu amor mais robusto
Escorrem as lágrimas dos meus olhos de menino
Tenho as rugas e a palidez
Tenho o cansaço e as calças curtas
Tenhos os cabelos brancos
e a brancura dos sonhos intactos
Estou vivo
Estou morto
Percuto o espaço
fingindo-me desinteressado
em busca de um sinal
Por instantes
Enlouqueço
E como os que já desesperaram
bebo o sumo da mais imaculada loucura
e sento-me na praça à espera de Deus
Deus é para os que já não têm mais cura
Apesar de todos
trago nos ventrículos uma esperança genética
tão saudável quanto a minha boca
Paira sobre nossas cabeças
o rastro de uma névoa tênue e fugaz
quase tão invisível quanto o nada
Tudo é tão incerto
quanto o não dito
O mundo faz as caretas de costume
e é feio e assustador
como as verrugas da bruxa
Não há sentido
no fluxo desatinado
dos que dão passos firmes
sobre as pedras regulares da civilização
Ofendo o céu com a ponta do meu olhar
Procuro um sinal.
Rio, Maio de 2005
o rastro de uma névoa tênue e fugaz
quase tão invisível quanto o nada
Tudo é tão incerto
quanto o não dito
O mundo faz as caretas de costume
e é feio e assustador
como as verrugas da bruxa
Não há sentido
no fluxo desatinado
dos que dão passos firmes
sobre as pedras regulares da civilização
Apesar das evidências que nos esmurram a cara
prosseguimos
Avançamos ensandecidos
pisando raivosamente o peito
dos nossos cadáveres mais diletos
O chão é um tapete de dor e morte
Reconheço pelas feridas
o corpo desfigurado da minha última esperança
Arranco a espada fria
que trespassou a carne do meu amor mais robusto
Escorrem as lágrimas dos meus olhos de menino
Tenho as rugas e a palidez
Tenho o cansaço e as calças curtas
Tenhos os cabelos brancos
e a brancura dos sonhos intactos
Estou vivo
Estou morto
Percuto o espaço
fingindo-me desinteressado
em busca de um sinal
Por instantes
Enlouqueço
E como os que já desesperaram
bebo o sumo da mais imaculada loucura
e sento-me na praça à espera de Deus
Deus é para os que já não têm mais cura
Apesar de todos
trago nos ventrículos uma esperança genética
tão saudável quanto a minha boca
Paira sobre nossas cabeças
o rastro de uma névoa tênue e fugaz
quase tão invisível quanto o nada
Tudo é tão incerto
quanto o não dito
O mundo faz as caretas de costume
e é feio e assustador
como as verrugas da bruxa
Não há sentido
no fluxo desatinado
dos que dão passos firmes
sobre as pedras regulares da civilização
Ofendo o céu com a ponta do meu olhar
Procuro um sinal.
Rio, Maio de 2005
Poema© :JoaquimESTEVES
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Súplica
Dois anos com você na estação
Cadê o trem?
Tantos trens já passaram
E eu já perdi o meu
E tenho que ir para algum lugar
Agora que o tempo já passou por nós
E o seu trem ainda está por chegar
E o meu está muito atrasado...
Não sei para onde você quer ir
Eu tenho menos escolhas
e estou um pouco mais cansado
Não quis ir para Japeri
quando você nasceu
Nessa época todo mundo ia pra lá
Não sei o que faço da minha angústia
O trem não chega
Não há trens para passageiros rebeldes
e eu fui condenado pela rede ferroviária
Dizem que sou exigente
Não é verdade
Eu só não quero ir para Japeri
Nestes dois anos foi mais fácil
esperar o trem
Imagina!
Uma espera com tantos beijinhos
com tantos sorrisos
sob a mira desses teus olhinhos tão verdinhos
Imagina!
Uma estação toda cheia só com você
Eu juro que até esqueci o trem
Só quando você se cansou de esperar o seu
é que eu me lembrei do meu
Todo mundo sabe que eu sou um passageiro chato
Já pensei em fazer o meu próprio trem
Mas os trens já nascem prontos
E eu não quero passar por louco
Não sei se ainda sei esperar sózinho
Enquanto o seu trem não chega...
Claro
Você pode ir para aquele outro banco
Há sempre viajantes na estação
Mas enquanto o seu trem não chega...
Amargo a vergonho e orgulho
de ter ficado pra trás
Perdi a grande farra de Japeri
Você é quem sabe
Mas...
Eu até cheguei a acreditar na vida após os trens
viu?
Então
Pra quem você quer dar a sua alegria
Dê pra mim
Fica por aqui nesta estação
Atravessei o oceano para esperar o trem aqui
Bom...
Você....
Olha
Eu apesar de ranzinza também sou muito engraçado
Posso inclusive te contar piadas de português
Posso também te contar de novo
todas as minhas histórias tristes
Sou versátil como um robô da Chevrolet
Minha linda
Você é quem sabe
Mas enquanto o seu trem não chega...
Rio, 30 de Novembro de 1998
Cadê o trem?
Tantos trens já passaram
E eu já perdi o meu
E tenho que ir para algum lugar
Agora que o tempo já passou por nós
E o seu trem ainda está por chegar
E o meu está muito atrasado...
Não sei para onde você quer ir
Eu tenho menos escolhas
e estou um pouco mais cansado
Não quis ir para Japeri
quando você nasceu
Nessa época todo mundo ia pra lá
Não sei o que faço da minha angústia
O trem não chega
Não há trens para passageiros rebeldes
e eu fui condenado pela rede ferroviária
Dizem que sou exigente
Não é verdade
Eu só não quero ir para Japeri
Nestes dois anos foi mais fácil
esperar o trem
Imagina!
Uma espera com tantos beijinhos
com tantos sorrisos
sob a mira desses teus olhinhos tão verdinhos
Imagina!
Uma estação toda cheia só com você
Eu juro que até esqueci o trem
Só quando você se cansou de esperar o seu
é que eu me lembrei do meu
Todo mundo sabe que eu sou um passageiro chato
Já pensei em fazer o meu próprio trem
Mas os trens já nascem prontos
E eu não quero passar por louco
Não sei se ainda sei esperar sózinho
Enquanto o seu trem não chega...
Claro
Você pode ir para aquele outro banco
Há sempre viajantes na estação
Mas enquanto o seu trem não chega...
Amargo a vergonho e orgulho
de ter ficado pra trás
Perdi a grande farra de Japeri
Você é quem sabe
Mas...
Eu até cheguei a acreditar na vida após os trens
viu?
Então
Pra quem você quer dar a sua alegria
Dê pra mim
Fica por aqui nesta estação
Atravessei o oceano para esperar o trem aqui
Bom...
Você....
Olha
Eu apesar de ranzinza também sou muito engraçado
Posso inclusive te contar piadas de português
Posso também te contar de novo
todas as minhas histórias tristes
Sou versátil como um robô da Chevrolet
Minha linda
Você é quem sabe
Mas enquanto o seu trem não chega...
Rio, 30 de Novembro de 1998
Poema© :JoaquimESTEVES
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
O sequestro do sol
Poema-síntese
E logo após
um arroto da sorte
de mãos atadas ao lado torto das circunstâncias
e com uma esperança espetada na alma
desabei
e caí no útero gerador dos mundos
Fazia frio
e por momentos
esqueci-me do calor
e da minha mãe
Adormeci enrolado num cobertor
de muitas névoas
Fiquei quieto
e vivi uma das minhas muitas mortes
num canteiro
com saudades da vida
De manhã
Olhei para o céu
e substituindo o sol
admirei o cinza e a arte
nos focinhos dos criminosos
que fabricaram o meu destino
E o destino
nasceu-me de xale
e cantando fado
Nasceu-me ibérico
pequenino e feio
Pendurei-me à cauda do continente
Escorreguei mil vezes e de mil maneiras
e só não me desintegrei no chão
porque o destino
na véspera
tinha sido nomeado meu protetor
Passei pelos dias
de cabeça baixa
Escalei o cume das noites
com angústia alta
Era estranha aquela parte do mundo
Qual seria o deus que o havia feito?
Por certo
um inimigo do sol
O meu sol estava enfermo
e eu era mais um inútil invisível
para aquela gente que morava sem luz.
Portugal, janeiro de 1990
Poema© :JoaquimESTEVES
sábado, 13 de agosto de 2016
Cyber
Nunca deixei de caminhar pelas minhas esperanças
Conheci-as todas pelo nome
Esperanças vis
Esperanças vagas
Esperanças vãs
Esperanças boas
Esperei
Esperei com o transe frenético dos sectários
E com os sentidos sobressaltados
dos que espiam na noite escura
Esperei
Mudei de esperança
E me cansei
E certo dia com a cara de todos os dias
Nasceu uma Cyber esperança frágil
Mais uma vítima para a minha lucidez
Hoje que ela faz cinco anos
Nas minhas caminhadas
Sigo o seu rastro
E de lá pra cá
Nada mais é digno de se chamar esperança.
Rio, Dezembro de 2009
Conheci-as todas pelo nome
Esperanças vis
Esperanças vagas
Esperanças vãs
Esperanças boas
Esperei
Esperei com o transe frenético dos sectários
E com os sentidos sobressaltados
dos que espiam na noite escura
Esperei
Mudei de esperança
E me cansei
E certo dia com a cara de todos os dias
Nasceu uma Cyber esperança frágil
Mais uma vítima para a minha lucidez
Hoje que ela faz cinco anos
Nas minhas caminhadas
Sigo o seu rastro
E de lá pra cá
Nada mais é digno de se chamar esperança.
Rio, Dezembro de 2009
Poema© :JoaquimESTEVES
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Ninho na ventania
E agora que você fez ninho no meu coração?
E agora?
Quantas manhãs foram precisas
para tecer esse cantinho precioso
de amor e bem querer?
Quantas folhas e gravetos
tivemos que carregar nos ombros
para dar um abrigo aos meus sentimentos?
E agora?
Agora que você fez ninho no meu coração
Quantos raios de sol foram precisos
para iluminar a estupidez do meu coração obscuro?
E quantos anos devoramos
para fazer um lugar tão insignificante e tão grandioso em nossos corações?
Um dia
o frio cortante do relento
vai te ensinar a ficar quietinha
e a usufruir estática do calor prosaico
de um ninho quase banal.
quinta-feira, 28 de julho de 2016
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Longe
Escolhi as ruas mais escuras da cidade
Olhei as folhas
E o verde traído pela escuridão
Desviei-me dos buracos de terra batida
Buscava os espectadores ideais
para a minha angústia
Queria o que não pode ver
Não queria que me vissem
Quando cheguei ao meu destino
Doei as minhas lágrimas
Ao arvoredo silencioso e quieto
Entreguei-as à irracionalidade
da vegetação pacífica
Ofereci-as às sombras
dos que não têm tempo
para me escutar
Chorei na montanha
Longe
Muito longe dos homens.
sábado, 18 de junho de 2016
Domingos de sol
Seis horas da tarde
nesta remota filial do inferno
Chove
Chove uma chuva zangada
sobre os caldeirões em brasa viva
Fui à praia
O sol bateu-me o dia inteiro
Sinto-me queimar
Ardo e me desintegro
Minha revolta é uma fogueira
que se alastra e me mata
Cada labareda é um minuto de revolta
que guardei silente e quieto
num lugar fresco e arborizado
Percebo atento
cada movimento das chamas
Observo-me crepitar e enegrecer
Neste incêndio sem bombeiros
Foi a pomba da minha alma
incendiária e impulsiva
que riscou o fósforo e me destruiu
Morro hoje infeliz
e experimento apesar de tudo
o gosto pacífico da terra molhada
pela chuva farta dos meus olhos.
Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 1999
nesta remota filial do inferno
Chove
Chove uma chuva zangada
sobre os caldeirões em brasa viva
Fui à praia
O sol bateu-me o dia inteiro
Sinto-me queimar
Ardo e me desintegro
Minha revolta é uma fogueira
que se alastra e me mata
Cada labareda é um minuto de revolta
que guardei silente e quieto
num lugar fresco e arborizado
Percebo atento
cada movimento das chamas
Observo-me crepitar e enegrecer
Neste incêndio sem bombeiros
Foi a pomba da minha alma
incendiária e impulsiva
que riscou o fósforo e me destruiu
Morro hoje infeliz
e experimento apesar de tudo
o gosto pacífico da terra molhada
pela chuva farta dos meus olhos.
Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 1999
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Doce lar
Hoje
Eu fiz uma fantasia
tão sinistra
quanto uma calamidade pública
tão secreta
quanto as dores quietas
de uma cabeça sózinha
nas guerras da noite.
Quis perder tudo
para voltar à origens
Perder o dinheiro
Perder a memória
Desesperar um desespero total
tão grande e tão absoluto
onde não sobrevivesse
o último facho de luz
de todas as minhas estúpidas esperanças
E aí
Rasgava as roupas
e livrava-me da minha importância
e do delírio
que me ensinaram a delirar
Procurava o mar
como quem procura Deus
fanática e alucinadamente
E sem saber nadar
encontraria finalmente o nada
e um útero fresco e estéril
para esquecer e repousar
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