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sábado, 18 de junho de 2016

Domingos de sol

Seis horas da tarde
nesta remota filial do inferno

Chove 
Chove uma chuva zangada
sobre os caldeirões em brasa viva

Fui à praia
O sol bateu-me o dia inteiro

Sinto-me queimar
Ardo e me desintegro

Minha revolta é uma fogueira
que se alastra e me mata

Cada labareda é um minuto de revolta
que guardei silente e quieto
num lugar fresco e arborizado

Percebo atento
cada movimento das chamas

Observo-me crepitar e enegrecer
Neste incêndio sem bombeiros

Foi a pomba da minha alma
incendiária e impulsiva
que riscou o fósforo e me destruiu

Morro hoje infeliz
e experimento apesar de tudo
o gosto pacífico da terra molhada
pela chuva farta dos meus olhos.

Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 1999 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Doce lar


Hoje 
Eu fiz uma fantasia
tão sinistra 
quanto uma calamidade pública
tão secreta
quanto as dores quietas
de uma cabeça sózinha
nas guerras da noite.

Quis perder tudo
para voltar à origens
Perder o dinheiro
Perder a memória
Desesperar um desespero total
tão grande e tão absoluto
onde não sobrevivesse 
o último facho de luz
de todas as minhas estúpidas esperanças

E aí
Rasgava as roupas
e livrava-me da minha importância
e do delírio
que me ensinaram a delirar
Procurava o mar 
como quem procura Deus
fanática e alucinadamente
E sem saber nadar
encontraria finalmente o nada
e um útero fresco e estéril
para esquecer e repousar 

sábado, 21 de maio de 2016

O preço da chuva

Será sempre bom
Reencontrar os meus verdadeiros caminhos
E os meus mais secretos atalhos
Poder pisá-los com os meus pés descalços
Poder enxergá-los
Com os teus olhos híbridos e volúveis
Quase verdes
Quase cinza
E quase meus.

E será sempre bom
Pairar sobre a alegria
Como uma ave de rapina
Sem garras para tanto
Sem satisfação para tão pouco.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Magnética


ÁGUA
 na 
BOCA
de
  CHOCOLATE

DENTES
ESMALTE
FRUTA 
e
GULA

HÁLITO 
IDEAL
JAZZ
 e 
LÁBIOS
MOVEDIÇOS

NOITE
de 
OUTONO
QUÍMICA
QUIMERA

RECEITA
SINUOSA

 TATO
UNIDADE

VENTANIA
XENÓFILA
de 
ZANZIBAR

sábado, 16 de abril de 2016

Possibilidades

AINDA
BENEFICIAREI
da
COLHEITA
DILUVIOSA
de
ESTRELAS

FORAM-SE
as 
GAIVOTAS
mas
ainda
IMAGENS
na 
JUNÇÃO 
da 
LUZ

MAR 
é 
NOVO 
a
OUSADIA
será
PERFEITA

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Reflexos

AGUARDO 
      à
BEIRA-MAR
      a
BENÇÃO
      da
     tua
CANÇÃO


DISPO-ME
        e
ESPERO-TE


ESPERO
     o
  doce
FLAGELO
    das
   tuas
FORMAS
porque
    tens
      a
FISIONOMIA
       do
      meu 
FUTURO

GELO
as
HORAS
INSUBMISSAS
que
me
JULGAM
preciso
LEGITIMAR
o
LÁBIO
e
o
LÍRIO-LÁBIL
da
MEIA-LUZ
que 
NASCEU
do teu
OBSÉQUIO
e
PERECERÁ
se
não
QUISERES
RESTITUIR-ME
o
SEGREDO
SIDERAL
do 
teu 
TOQUE 
(Poema em ordem alfabética)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Vestígios

AGORA
que já 
ASSASSINEI  
os 
teus
BEIJOS

COLECIONO
os CACOS
das
CARÍCIAS
que 
me
DEIXASTE

EMBRULHO 
teu 
ENCANTO
 e
ESPERO 
no
ESTIO
FLORAÇÃO
dos 
teus 
GESTOS 

Poema© :JoaquimESTEVES
 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Definição

Sou um ser das estações
Vivo conforme os ventos da cidade
Tenho verões súbitos
e invernos ainda mais súbitos
Tenho primaveras de alguns minutos
e eternos outonos de nuvens e lutos

E o meu coração
é a amendoeira da rua
Estática nos dias de brisa leve
e despedaçada nos vendavais
de fim de tarde. 

Poema© :JoaquimESTEVES

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Espasmo

E aqui estou
Inquilino da morte
Nesta noite sem lua
Nesta ampliação do nada
Colecionando medos
E matando estes sonhos
vagabundos
Parasitas da minha angústia

Procuram-me a esta hora da noite
Estas perspectivas 
despidas de esperança
No vácuo histérico do meu tórax
Adormece uma alma doente
e poluída

Eu sei que mereço muito mais
Mas a sorte que me cuspiu 
no rosto
Só me deu letras e palavras. 


Poema© :JoaquimESTEVES

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Demissão

Deixo-vos tudo
Fiquem com tudo

Fiquem com as filas dos bancos
As buzinas dos carros
A estupidez dos passantes
A pressa dos perdidos
O alarido dos tontos
A violência tranquila

Deixo-vos tudo
Fiquem com tudo

Fiquem com a indiferença 
dos vizinhos
A ganância dos banqueiros
A podridão das almas
A loucura dos normais 
O trabalho compulsivo
A proibição do grito
O progresso inútil
A coerção dos espíritos
A multidão histérica

Deixo-vos tudo
Fiquem com tudo

Fiquem com a democracia
arbitrária
Os direitos feridos 
O sadismo dos burocratas 
Os crimes dos políticos
As cabeças doentes
A falta de sentido
O absurdo inchado
A injustiça feroz
As cartas marcadas
As alegrias compradas
O dinheiro psicopata
A fome dos inocentes 
E a morte dos puros

Deixo-vos tudo
Fiquem com tudo
Fiquem com esse zoológico 
de ilusões
Esse faz-de-conta viciante
Fiquem com o circo do poder
E o horror de quem manda
Fiquem com tudo
Com os clitóris amputados
Com os homens-bomba 
Com as bombas dos homens
Fiquem com a beleza que engana
E o prazer que escraviza
Com o hálito dos desesperados
E o sorriso dos falsos

Só vou sentir saudades
Do ritmo das manhãs
Da autoridade do sol
Do cheiro do café
E dos acenos da esperança.

Poema© :JoaquimESTEVES

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Chão

Passeio os meus sonhos
Numa rua deserta
Sofro com o sopro do vento
Eu sou em carne viva
Eu sou uma chaga aberta
E usufruo a plenitude
de uma ferida inteira

Tenho receio das fêmeas
E do barulho
Desconfio das festas
E da primavera

Agito-me e repouso
no solo 
do meu próprio peito.  

Poema© :JoaquimESTEVES

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Manhãs cariocas

O sol pariu o primeiro raio
Estou cego
por haver tanta luz

Hoje é tarde
Prossigo impulsionado
pelo calor dos bueiros
e pelo sopro das galerias

Sou uma composição química
e moro
nos subúrbios remotos do paraíso

Hoje é tarde
É dia de extirpar o coração 
e viver apesar dele

Estou aquém e além dos outros
e não me seduzem mais
as conclusões da plebe

Sedimento os meus sentimentos 
e quero tudo

E quem sabe
amanhã de manhãzinha
aguarda-me o estranho silêncio
da minha execução. 

Poema© :JoaquimESTEVES

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Reincidências


Faço a mesma barba
O mesmo xixi
O mesmo sorriso
O mesmo ih! ih!

Bebo o mesmo café
A mesma lágrima
O mesmo  " Pois é"!

Esbofeteia-me o mesmo vento
O mesmo sol
O mesmo tempo

E leio a mesma notícia
No mesmo jornal
Com o mesmo crime
Com a mesma polícia

Paro no mesmo sinal
Na mesma rua
No mesmo mal

E vejo o mesmo Zé
Na mesma esquina
Com o mesmo porre

E encontro a mesma mulher
Sem os mesmos dentes
Sem a mesma mínima
pouca vergonha

Espirro o mesmo atchim
Sofro do mesmo rim
E mesmo assim
É mesmo assim.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Consummatum est

Nada é novo
Todos me julgam
E eu não tenho culpa

Estou muito longe do Rio
que me ofereceria 
um mergulho Redentor
E muito perto do atalho
da minha decisão

Cedo e me rendo ao silêncio
e à vergonha dos desertores
Detesto as Vitórias
e a fabricação dos Heróis

Fecho os olhos
Tampo os ouvidos
Reduzo o choque
Amorteço a minha Condição 
E espero.

Lisboa, 5 de Novembro de 2005

sábado, 9 de janeiro de 2016

Apenas


Há cobras nos meus sonhos
e fendas nos meus desejos
Há água na minha boca
e líquidos nos meus anseios

Há vaginas desertas
como oásis secretos
do outro lado dos meus pesadelos

Não quero mais a felicidade
Quero um corpo livre e incompleto
para o meu

Não quero mais a felicidade
Quero a língua viperina
e a boca vermelha
de baton e de ilusão
de todas as mulheres

Não quero mais a felicidade
Quero porque quero
Aberturas e sutilezas
Gritos e procuras
Gemidos e sussuros
e um orgasmo no final.